COM A PALAVRA OS SERVIDORES DA UNIDADE 3

E eis que a população de Mato Grosso, vocês, finalmente ouviram falar da Unidade 3 do CIAPS Adauto Botelho! A Unidade de internação psiquiátrica da Secretaria de Estado de Saúde inaugurada em 2005, com 50 leitos para homens dependentes químicos, provindos de todos os municípios do Estado. Não somos um CAPS – Centro de Atenção Psicossocial. Somos a única unidade de internação para dependência química do SUS, referência para todo o Mato Grosso. Os CAPS são sim nossos parceiros. Para nós, servidores, a precariedade e a falta de condições de trabalho não são novidade: todas as dificuldades que enfrentamos, nunca foram impedimento para estarmos 24 horas por dia dedicando nosso conhecimento, nossa atenção, nossa dedicação e esforço aos nossos pacientes. Mesmo na precariedade, diante da pandemia, não nos acovardamos e seguimos nosso trabalho.

Somos profissionais da saúde mental. Psicólogos, arteterapeutas, nutricionistas, médicos clínicos gerais, psiquiatra, enfermeiros, técnicos de enfermagem, assistentes sociais, técnico agrícola, farmacêuticas, totalizando 57 profissionais, além dos terceirizados da cozinha, limpeza e vigilância. Nestes 15 anos, servindo aos 3,224 milhões de habitantes de nosso Estado, atendemos uma média de 100 homens por ano, estimamos que mais de 1.000 pessoas passaram por nossas mãos. Homens de todas as idades, credos, etnias, origens, níveis escolares e classes sociais, das zonas rural, urbana e indígena. Trabalhamos com os familiares, estimulamos a inserção e a ressocialização de cada sujeito de forma única. Nosso maior objetivo é valorizar o potencial deste ser humano que chega até nós em frangalhos, sem perspectiva de vida, excluído e marginalizado.

Nestes 15 anos vimos o legislativo e o judiciário apoiar, elogiar e investir em comunidades terapêuticas (que trabalham sem nenhum respaldo científico e ainda cobram mensalidade), enquanto precisamos de valorização por parte de nossos próprios gestores. Temos Projeto Terapêutico amplamente discutido e revisado. Fazemos matriciamento ao devolver nosso usuário ao seu município de origem. Nosso espaço institucional é campo de estágio e de pesquisa da UFMT, UNIC, UNIVAG, UERJ.

A pandemia pegou-nos em nosso cotidiano de trabalho. Trata-se de um inimigo invisível, que não nos ataca por sermos de cor ou de opinião diferentes. Uma doença que não nos acomete por falta de atenção, mas justamente ela é transmitida através dos atos de amor, de cuidado e de proximidade. É uma doença transmitida pelo toque, pela aproximação. Nossa conduta virou pelo avesso: em vez de ressocializar, temos que pedir para nossos pacientes se isolarem. Sabemos que suas dores da alma vão piorar, vão se intensificar. Alguns de nossos pacientes vão entrar em crise em suas casas, assim como nós mesmos estamos completamente fragilizados e amedrontados. De repente, temos que nos proteger uns dos outros, não podemos estender nossas mãos, não podemos fazer grupos de arteterapia, não podemos promover várias oficinas terapêuticas que vimos oferecendo por todos esses anos, pelos quais aprimoramos nossa experiência com essa clientela.

O pior aconteceu: nós mesmos fomos adoecendo, um a um, por conta do COVID19. Os nossos EPIs (equipamentos de proteção individual) só chegaram em nossa Unidade depois que um de nós já estava em estado grave na UTI. Não conseguimos identificar o “ponto zero” da contaminação, já que é sabido que o COVID19 é transmitido principalmente pelos assintomáticos, ou seja, a própria pessoa não sabe que está com um vírus. Não sabemos de onde o vírus veio, mas sabemos que somos como uma família em nosso local de trabalho. E, assim como dentro das casas de cada um de vocês, a mesma coisa acontecerá, caso você não se afaste por um metro de quem acabou de chegar da rua ou caso você, contaminado sem saber, beije sua esposa ou abrace seu filho depois de pegar sua condução, voltando do trabalho.

Defendemos nossa missão, defendemos o SUS, defendemos o tratamento em saúde mental humanizado, defendemos a inclusão de nossos usuários. Mas neste momento estamos frágeis, guerreiros feridos, alguns em estado grave, alguns com crise de angústia, e tantos outros sentimentos de impotência e solidão. Nossos familiares também adoecem junto conosco, física e psiquicamente. Estamos sofrendo preconceito de toda parte, chamados de “epicentro do coronavírus” ou “ninho de COVID”, quando gostaríamos de receber iniciativas positivas que melhorem verdadeiramente a realidade de nossa prestação de serviço.

Temos especialistas, mestres, doutores em nosso quadro profissional, trazemos o melhor que podemos aos nossos usuários. Precisamos do apoio da população a quem nos dedicamos. Especulação, preconceito, ridicularização, acusação não vão nos ajudar a tratar de vocês como queremos.

A única coisa que temos certeza é de que esse vírus veio para mostrar o quanto a saúde pública e a prevenção são importantes. Veio para que nosso olhar seja pelo coletivo e não cada um por si. Veio para colocar em evidência uma Unidade de Saúde Mental do SUS, até então desconhecida e que ninguém é melhor do que ninguém.

Agradecemos o apoio do nosso sindicato SISMA e, lembrem-se: enquanto estamos aqui trabalhando, por favor, fiquem em casa!

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